O comércio varejista brasileiro está passando por uma transformação que pode mudar a maneira como pequenos e médios empresários compram, vendem e competem no mercado. Pressionados pelo crescimento das plataformas internacionais de comércio eletrônico, lojistas de bairro, comerciantes de shopping centers e empreendedores de diferentes segmentos estão descobrindo na importação direta uma alternativa para reduzir custos e ampliar seus negócios.
Segundo levantamento citado da Klavi e da EY, os brasileiros movimentaram aproximadamente R$ 130 bilhões em 2025 em marketplaces asiáticos, como Shopee, Shein, AliExpress e Temu. O estudo também aponta que essas plataformas concentram 78% das buscas por comércio eletrônico no país, demonstrando a força dos concorrentes internacionais na disputa pelo consumidor brasileiro.
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Diante desse cenário, o varejo tradicional enfrenta um desafio: competir com produtos importados comercializados a preços reduzidos, muitas vezes semelhantes aos encontrados nas lojas físicas brasileiras.
A alternativa encontrada por parte dos empresários é mudar a própria estrutura de abastecimento, substituindo distribuidores e atacadistas nacionais pela compra diretamente de fabricantes estrangeiros.
A importação direta, anteriormente associada às grandes redes comerciais, começa a ganhar espaço entre pequenas e médias empresas brasileiras.
Com operações de cargas fracionadas e apoio de empresas especializadas em comércio exterior, lojistas conseguem adquirir volumes menores de mercadorias diretamente de fabricantes chineses, sem a necessidade de contratar contêineres completos.
Mais do que reduzir custos, essa estratégia permite desenvolver produtos exclusivos, embalagens personalizadas e marcas próprias, criando diferenciais para enfrentar a concorrência dos grandes marketplaces.
Para Rodrigo Giraldelli, CEO da China Gate, empresa especializada em assessoria de importação empresarial, essa mudança representa uma nova etapa na evolução do pequeno varejo brasileiro.
“O pequeno varejista entendeu que, se ele vende exatamente a mesma capinha de celular ou a mesma blusa sem marca que está no aplicativo asiático, ele perde a venda. A virada de chave no último ano foi o uso da importação direta fracionada.”
Segundo Giraldelli, o empresário passa a controlar melhor sua identidade comercial ao exigir que os produtos importados sejam fornecidos com logomarca, embalagem e padrões próprios de qualidade.
“Ele deixou de ser um mero revendedor e virou dono de uma marca. É a transição da sobrevivência para a escala”, destaca.
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Um dos principais atrativos da importação direta é a possibilidade de reduzir os custos de aquisição das mercadorias.
Ao eliminar determinados intermediários da cadeia de distribuição, o comerciante pode conseguir preços mais competitivos, aumentando sua margem de lucro e criando condições para investir na expansão do negócio.
De acordo com Giraldelli, dependendo do produto e das condições da operação, a economia pode alcançar até 50%, considerando os custos de nacionalização, frete e tributos.
Entretanto, a importação exige planejamento financeiro, conhecimento das exigências aduaneiras e avaliação dos riscos cambiais. Custos de armazenagem, certificações obrigatórias, prazos de entrega e capital imobilizado em estoques também precisam entrar na conta.
A economia anunciada, portanto, não é automática nem se aplica a todos os segmentos.
A transformação também abre perspectivas para empresários de Macaé, Rio das Ostras, Cabo Frio, Armação dos Búzios e demais municípios da Costa do Sol.
Em uma região com atividades econômicas ligadas ao petróleo e gás, turismo, construção civil, serviços e comércio, a importação direta pode representar uma oportunidade de diversificação e fortalecimento das pequenas empresas.
Lojas de utilidades domésticas, acessórios para celulares, iluminação, decoração, artigos para hotéis e pousadas, ferramentas e determinados materiais de acabamento estão entre os segmentos que podem avaliar esse modelo de abastecimento.
Um comerciante de Macaé, por exemplo, pode estudar a importação de uma linha própria de acessórios e produtos de decoração, enquanto empresários do setor turístico podem buscar itens personalizados para atender hotéis, pousadas e estabelecimentos comerciais.
A possibilidade de criar marcas regionais também merece atenção. Produtos desenvolvidos para atender às características do mercado local podem conquistar consumidores que valorizam atendimento, disponibilidade imediata, garantia e relacionamento com o fornecedor.
Para isso, é fundamental considerar as regras de importação, certificações e exigências técnicas aplicáveis a cada categoria.
O crescimento do empreendedorismo também contribui para essa mudança no comportamento empresarial.
Dados do Sebrae mencionados no levantamento indicam que a abertura de pequenos negócios cresceu quase 14% nos primeiros sete meses de 2026, ampliando o número de empresas interessadas em novas estratégias de fornecimento e comercialização.
Esse movimento exige, entretanto, uma postura mais profissional dos empreendedores, especialmente na gestão de estoques, planejamento tributário, logística e formação de preços.
Importar diretamente pode ser vantajoso, mas não substitui a necessidade de conhecer o consumidor, oferecer qualidade e manter uma operação financeiramente sustentável.
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A expansão dos marketplaces internacionais demonstra que a competição no varejo deixou de ser apenas uma disputa entre lojas da mesma cidade.
Hoje, o pequeno empresário brasileiro concorre com fornecedores e plataformas de diferentes países, em um mercado cada vez mais integrado e digitalizado.
Nesse ambiente, investir em marcas próprias, diversificar fornecedores, utilizar tecnologia e profissionalizar a gestão pode ser decisivo para a permanência e o crescimento das empresas.
Como resume Rodrigo Giraldelli:
“Não é mais o grande engolindo o pequeno. É o pequeno, ágil e bem assessorado, criando produtos exclusivos que o algoritmo do marketplace estrangeiro não consegue canibalizar.”
O olhar do Economia & Negócios
A internacionalização das compras pode representar uma oportunidade para o pequeno comércio regional, mas também revela uma mudança importante no perfil do empreendedor brasileiro.
Já não basta abrir uma loja, comprar mercadorias de distribuidores e esperar pelo consumidor. É preciso conhecer custos, identificar oportunidades, construir diferenciais e compreender que a concorrência ultrapassou as fronteiras nacionais.
Para Macaé e a Costa do Sol, onde o comércio e os serviços têm papel relevante na geração de empregos e renda, incentivar a qualificação empresarial e o acesso a novos mercados pode contribuir para uma economia regional mais diversificada e competitiva.
O desafio do pequeno varejo não é apenas vender mais barato, mas encontrar caminhos para vender melhor, preservar suas margens e construir negócios capazes de crescer.
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